Dezembro de 2019 foi um mês importante. Decidimos comprar a nossa primeira casa. Nossa, mesmo nossa (do banco também, mas é o que é). Vimos o projeto e gostamos da ideia de acompanhar a construção, escolher os materiais, conhecer o construtor, o eletricista, o picheleiro, o carpinteiro e todos os restantes.

Tudo apontava para que nos mudássemos em outubro de 2020. Mas eis que a vida se viu forçada a entrar no modo suspenso devido à COVID-19. É verdade que a construção civil foi dos setores que continuou a atividade. O problema, no nosso caso pelo menos, foram os serviços adjacentes, como licenças, autorizações camarárias, e demais burocracias. Ficamos à espera da papelada quase um ano e a obra só arrancou em finais de setembro de 2020.

Produção de água quente sanitária e o consumo de energia estão relacionados?

Contudo apesar do tempo de espera, este teve as suas vantagens. Ganhámos tempo para investigar mais sobre tudo o que envolve construir uma casa e esclarecer as muitas dúvidas que nem sabíamos que tínhamos. Uma das principais prendia-se exatamente com a melhor solução para o aquecimento de águas sanitárias.

Queríamos uma casa eficiente em termos energéticos e já tínhamos lido que a produção de água quente sanitária é um dos principais fatores de consumo de energia em casa (1). Por isso, estávamos empenhados em encontrar a solução ideal.

No contrato promessa da nossa moradia, o construtor incluiu a instalação completa de uma bomba de calor híbrida e a pré-instalação de painéis solares. Como não sabíamos muito sobre o assunto, fomos tentar conhecer os sistemas existentes e as vantagens e desvantagens de cada um deles.

Confesso que não foi fácil ficar familiarizada com todos os termos, mas valeram os artigos, os testes e as dicas disponíveis nos sites da Deco Proteste e do Portal Energias Renováveis e mesmo da marca EDP.

Vamos então conhecer os sistemas de aquecimento de águas sanitárias que existem, perceber como funcionam, para depois compará-los e fazer a melhor escolha para a sua casa. É muita informação, mas estar a par dela é fundamental para a eficiência do seu lar.

Tabela de Conteúdos

1. Sistema solar térmico

Esta solução utiliza o sol, fonte de energia inesgotável, para o aquecimento da água.

Através da instalação de um coletor solar térmico colocado no exterior, converte a energia solar em calor útil e, assim, fornece água quente para qualquer necessidade, seja banhos, apoio ao aquecimento central da casa, aquecimento de piscinas, etc. As fontes indicam que é capaz de suprir até 70% das necessidades de água quente. (2)

Como funciona?

Existe o sistema solar térmico de circulação natural (termossifão), com o depósito em cima dos coletores, e o sistema de circulação forçada, com os coletores no telhado e depósito no interior.

A primeira opção é a mais comum. Tem um investimento mais baixo, menor manutenção, mas é mais limitado ao nível da produtividade solar, da capacidade de armazenamento da energia e da área de captação. Também, por exemplo, não permite a interligação de um sistema de recirculação das águas quentes sanitárias (AQS).

Na segunda opção, o sistema solar térmico de circulação forçada, o transporte de energia entre os coletores e o depósito é garantido por uma bomba circuladora. Permite aquecer um maior volume de água e oferece a possibilidade de se interligar com o sistema de recirculação das AQS. No entanto, como envolve mais componentes, é um sistema mais difícil de instalar e um pouco mais caro, além de exigir uma manutenção mais frequente que o sistema solar térmico por termossifão.

Tenha em conta que, quando a energia solar for insuficiente, sobretudo durante os meses de inverno, os painéis solares térmicos não conseguirão aquecer a água em casa. Por isso, é sempre recomendável contar com um sistema complementar de aquecimento, como, por exemplo, uma bomba de calor ou um esquentador.

Investimento

A instalação do sistema solar térmico ronda os 1200€-2500€ e representa uma poupança média anual de 280€ (4). Em cerca de 8 a 9 anos, consegue recuperar o investimento inicial.

2. Esquentador a gás instantâneo

O esquentador é um sistema instantâneo para aquecimento da água, ou seja, apresenta uma ignição elétrica automática que começa de imediato a aquecer a água assim que ligada. A água atinge a temperatura ideal em alguns segundos.

O esquentador a gás é o equipamento mais utilizado para o aquecimento de águas sanitárias e pode ser o mais adequado para quem tem fornecimento de gás, principalmente se for gás natural canalizado em vez das botijas de gás butano ou propano.

Como funciona?

Os esquentadores mais modernos, já muito distantes dos conhecidos “chama-pilotos”, arrancam de forma automática ao abrir a torneira, além de recorrerem a tecnologias avançadas de redução de emissões poluentes como o NOx (óxido de nitrogénio). Apresentam, ainda, um tempo de vida útil de 20 anos.

Para uma casa ou apartamento em que estejam frequentemente várias torneiras a funcionar ao mesmo tempo – cozinha, duche, lavatório -, os esquentadores mais recentes oferecem a vantagem de não esgotar a água quente. Ou seja, adeus baldes de água fria quando alguém abre a torneira da cozinha enquanto toma banho.

O período de tempo que decorre até a água chegar à temperatura certa é um dos principais pontos de desperdício de energia e água na utilização de um esquentador, e será tanto maior quanto a distância entre o sistema e o ponto de consumo (casa de banho ou cozinha, por exemplo).

Investimento

Opte por um esquentador de classe energética A, que representa um custo inicial entre os 300€-500€. (3)

3. Bombas de calor

As bombas de calor são a solução mais eficiente no aquecimento de água.

Como funciona?

Utilizando a mesma tecnologia que os ares condicionados, as bombas de calor extraem calor do ar exterior e transportam-no para a água no seu depósito.

Existem:

Bombas de calor ar-água (aerotérmicas)

As bombas de calor de ar-água são de baixa e de alta temperatura e são alimentadas por energia renovável extraída do ar e eletricidade. Podem ser combinadas com piso radiante, radiadores e painéis solares.

Bombas de calor geotérmica

Estas bombas de calor geotérmicas são as que aproveitam a energia do solo para aquecimento e água quente sanitária. Ao extrair energia abaixo da superfície da Terra, as bombas de calor geotérmicas são extremamente fiáveis, mesmo nos climas mais frios, pois a temperatura do solo permanece muito estável ao longo do ano.

Funcionam através de um coletor introduzido no solo e ligado à unidade bomba de calor, o que exige um terreno/jardim disponível para a instalação. Este sistema reduz significativamente as emissões de carbono e ajuda a poupar nos custos da energia a longo prazo.

Bombas de calor híbrida

Juntam a tecnologia de uma bomba de calor ar-água e a tecnologia da caldeira de condensação de gás. São alimentadas por uma combinação ideal de ar, eletricidade e gás.

Ainda, de referir que existem bombas de calor compactas, ou monobloco, com depósitos entre os 100 e os 300 litros, e as bombas de calor split, compostas por dois equipamentos, a unidade interior onde encontramos o compressor e a unidade exterior que corresponde ao acumulador de água.

O modelo compacto representa a melhor escolha porque se trata de um equipamento mais económico e não perde em performance para os modelos em split. É mais fácil de instalar e de baixa manutenção. No entanto, tenha em conta que as bombas de calor compactas produzem um ruído que pode ser desagradável, provocado pelo compressor e pelo fluxo de ar.

Se instalar o equipamento na garagem ou num espaço anexo à casa, não existe qualquer problema, mas se estiver a pensar em colocá-la num local contíguo a compartimentos geralmente usados, por exemplo a cozinha, aí deverá considerar o modelo em split.

No geral, as bombas de calor são consideradas as soluções mais eficientes disponíveis no mercado para o aquecimento de água.

Com classe energética A, as bombas de calor aerotérmicas possibilitam uma poupança de energia para aquecer água de até 85% quando comparada com sistemas como esquentadores e termoacumuladores convencionais.

Além disso, é de fácil montagem, baixa manutenção, garante um grande caudal de água quente disponível e apresenta modos de utilização como o ecológico, o automático/inteligente, o rápido e o personalizado. Importante também é dizer que incluem filtros anti-legionella. No entanto, este sistema está dependente do ar exterior, que apresenta variações significativas ao longo do ano que influenciam o rendimento do equipamento

As bombas de calor geotérmicas apresentam um tempo de vida útil muito prolongado, não estão dependentes da temperatura exterior e têm uma eficiência superior devido à estabilidade da temperatura do solo. No entanto, implicam a escavação do terreno e não são adequadas para terrenos rochosos.

Investimento

A principal desvantagem destes sistemas está no seu preço inicial.

As bombas de calor ar-água e híbridas apresentam um custo de implementação a rondar os 2500€ (4) e oferecem uma poupança média anula de 1000€.

As bombas de calor geotérmica, por sua vez, são as mais caras, sendo que o investimento inicial pode ir até aos 30.000€ (4) (5). São mais adequadas para edifícios grandes como hospitais, centros comerciais, condomínios, hotéis, podem proporcionar cerca de 3000€ de poupança energética anual. (4)

Para um lar com menos pessoas, por exemplo, onde vive apenas um casal e exista uma menor necessidade de água, os custos de implementação das bombas de calor podem não compensar a utilização.

4. Termoacumuladores ou Cilindros de Água Quente

Um termoacumulador é um equipamento que, como o nome indica, armazena o calor para o fornecer no momento desejado. É, no fundo, um reservatório de água aquecida pronta a usar.

Como funciona?

Um termoacumulador será tanto mais rápido a aquecer a água quanto maior for a sua potência. Mas para que tudo corra às mil maravilhas, é importante garantir que a potência de eletricidade subcontratada é a adequada à potência do equipamento, caso contrário o quadro elétrico estará sempre a disparar.

É boa ideia também optar por tarifas bi-horárias e recorrer a programadores de tomada (caso o modelo de termoacumulador não tenha programador), para que o equipamento seja ativado durante o período em que a sua tarifa é mais económica.

Quando for a escolher o seu termoacumulador, tenha em conta também a capacidade do equipamento (40 litros é o volume indicado por pessoa) e opte pelo equipamento com a etiqueta energética mais eficiente. Essa escolha não só é importante a nível ambiental, pois assegura que alguns níveis mínimos de eficiência estão a ser respeitados, como se traduz numa poupança significativa na fatura a pagar.

Os termoacumuladores mais recentes têm características que melhoram bastante a eficiência energética, além de terem um custo inicial mais baixo do que as outras soluções.

Além disso, já existem no mercado termoacumuladores inteligentes, capazes de ‘aprender’ as rotinas de quem vive em casa e adaptam o seu funcionamento à utilização diária da água. Numa rotina de banhos matinais, por exemplo, o equipamento aquece a água umas horas antes e desliga-se ao longo do dia.

Existem termoacumuladores elétricos e a gás (propano, butano e o natural), como tal, a sua primeira escolha deverá passar pelo modelo mais adequado à instalação da sua casa (caso não pretenda alterá-la).

Investimento

A opção mais económica! Encontra modelos com etiqueta energética A, a partir dos 150-200€.

5. Termoacumulador híbrido

Este sistema combina a tecnologia dos termoacumuladores inteligentes com a tecnologia das bombas de calor.

Como funciona?

Tal como um carro híbrido, esta solução permite-lhe alternar entre a resistência elétrica e a bomba de calor para gerir a eficiência da sua casa da melhor forma possível.

Face a um termoacumulador tradicional, o sistema híbrido apresenta uma poupança energética média de 50%. Os programas, totalmente personalizáveis, incluem uma opção ecológica, que usa apenas a bomba de calor, e outra mais potente, para aquecer a água rápido.

Investimento

Relativamente a preços, os termoacumuladores híbridos situam-se entre os esquentadores e as bombas de calor, rondando os 700-900€.

Resumo

Como se percebe, o mercado apresenta muitas opções e equipamentos cada vez mais inteligentes e eficientes, o que torna a sua escolha mais difícil.

É sempre fundamental ajustar os seus objetivos de eficiência e poupança às rotinas da sua família e às características da sua habitação e do local onde se situa (exposição solar, clima, tipo de terreno, etc).

Para ajudar a assimilar toda a informação, vou deixar um resumo muito simples, com as principais conclusões. Espero que seja útil!

A escolha mais económica

  • Se tem gás natural em casa e não quer investir muito, o esquentador pode ser melhor solução em termos de consumo de energia, porque o gás natural é mais barato que a eletricidade.
  • Se não tem gás natural e não quer investir muito, um termoacumulador é, à partida, a solução indicada. A exceção vai para famílias muito numerosas, em que o ideal será pensar numa bomba de calor.

A escolha mais eficiente

Se quer poupar ao máximo no consumo de energia, então a bomba de calor é a solução para si. Entre as existentes, as aerotérmicas e as híbridas serão as mais indicadas para habitações familiares.

Fontes:

1, 2 e 3 – Solar térmico

4 – Como transformar a eficiência energética na sua habitação

5 – Instalação de aquecimento geotérmico 

6 – Vantagens e desvantagens das Bombas de Calor Aerotérmicas

Diana Sousa
Autor

Esposendense de coração, a Diana é doida por boa comida e anda constantemente perdida nos motores de busca de voos, em pulgas com a próxima aventura. Acalma os bichos carpinteiros com treinos diários de cross training e rende-se facilmente perante um bom storytelling.

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